Pílula do Dia Seguinte

Sendo um assunto com muitas dúvidas e bem comentado na conta do site no instagram (@Farmacologia.Clinica), disponibilizo para vocês um resumo referenciado com manuais e artigos para apreciação.

Vale lembrar que o intuito deste site é promover conhecimento para profissionais da área da saúde. Caso você seja um paciente procurando informações sobre o tema, informo que nada é mais importante do que procurar um profissional capacitado para lhe orientar. Pare agora a leitura e procure ajuda especializada. Não procure no google respostas que podem impactar o futuro da sua família. Não tenha medo ou vergonha, você não está sozinha.

Fonte: Freepik

Segundo a obra intitulada Anticoncepção de emergência : perguntas e respostas para profissionais de saúde (Ministério da Saúde, 2011), a anticoncepção de emergência (AE) é um método anticonceptivo que visa prevenir a gestação após a relação sexual. O método, também conhecido por “pílula do dia seguinte”, ou ainda como “anticoncepção pós-coital”, utiliza compostos hormonais concentrados e atua por curto período de tempo nos dias seguintes da relação sexual. Diferente de outros métodos anticonceptivos que atuam na prevenção da gravidez antes ou durante a relação sexual, a AE tem indicação reservada a situações especiais ou de exceção, com o objetivo de prevenir gravidez inoportuna ou indesejada.

O paciente não deve abusar do método e deve tratá-lo como o próprio nome já diz: uma emergência. O objetivo da AE é prevenir a gravidez inoportuna ou indesejada após relação sexual que, de alguma forma, foi desprotegida. Dentre as principais indicações de AE, está a relação sexual sem uso de método anticonceptivo, por razão de violência sexual, falha conhecida ou presumida do método em uso de rotina (como a camisinha rasgar/furar) ou uso inadequado do anticonceptivo. Essas situações, infelizmente, são frequentes.

Faz-se necessário grifar que:

Em casos de violência sexual, a mulher adolescente, jovem ou adulta é submetida a extremo sofrimento físico e psicológico, comprometendo, muitas vezes de forma irreversível, sua saúde mental e física. Para agravar o quadro já traumático, privada da possibilidade de escolha, a mulher pode ainda sofrer uma segunda violência: a gravidez indesejada.

Ministério da Saúde – Anticoncepção de emergência : perguntas e respostas para profissionais de saúde (2011).

Uma das dúvidas rotineiras seria a de como é feito o método emergencial. Segundo o manual supracitado, existem duas formas de oferecer a AE. A primeira, conhecida como regime ou método de Yuzpe, utiliza-se de anticonceptivos hormonais orais combinados (AHOC) conhecidos como as “pílulas anticoncepcionais”. O Método de Yuzpe consiste na administração de pílulas anticoncepcionais combinadas, compostas de um estrogênio e um progestágeno sintéticos, administradas até cinco dias após a relação sexual desprotegida. Vale ressaltar que a associação, recomendada pela Organização Mundial da Saúde, é a que contém etinilestradiol e levonorgestrel. Para que se tenha a finalidade de AE, é necessária a dose total de 0,2mg de etinilestradiol e 1mg de levonorgestrel, divididas em duas doses iguais, com intervalo de 12 horas (Ministério da Saúde, 2011).

A outra forma seria o uso exclusivo de levonorgestrel na dose total de 1,5mg. Caso a você adquira uma apresentação do medicamento contendo 0,75mg de levonorgestrel por comprimido, a posologia pode ser feita com a administração de 1 comprimido de 0,75mg a cada 12 horas ou, preferencialmente, com 2 comprimidos de 0,75mg juntos, em dose única. Algumas laboratórios disponibilizam o levonorgestrel na dose de 1,5mg por comprimido. Nesse caso, utiliza-se 1 comprimido de 1,5mg em dose única. Da mesma forma que o método de Yuzpe, o levonorgestrel pode ser utilizado até cinco dias da relação sexual desprotegida.

Lenita Wannmacher (2005) nos traz que em 100 mulheres com intercurso desprotegido durante a segunda ou terceira semana do ciclo, existe a probabilidade de oito engravidarem. Se o método de Yuzpe ou levonorgestrel isolado forem usados, estima-se que somente duas mulheres ficarão grávidas (75% de redução). A autora do artigo recomenda, ainda que por apresentar eficácia e tolerância menores, o método de Yuzpe só deve ser oferecido em locais em que levonorgestrel (ou mifepristona) não esteja disponível.

Importante: Quanto mais tempo a paciente demorar a fazer uso do método, mais baixa a eficácia do medicamento se torna. Sugere-se que o método seja feito dentro das primeiras 72h para melhor eficácia. Traduzindo – Quanto antes tomar, melhor.

Segundo a OMS, tanto a forma de dois comprimidos (0,75mg 12h/12h) e a forma unitária (1,5mg dose única), são igualmente seguras e eficazes (Ministério da Saúde, 2011).

Uma outra dúvida recorrente seria a possibilidade do método de emergência causar / promover o aborto. No caso, faço uma citação direta do manual do Ministério da Saúde (2011):

Não existe qualquer sustentação científica para afirmar ou fazer suspeitar que a AE seja método que resulte em aborto, nem mesmo em percentual pequeno de casos. As pesquisas asseguram que os mecanismos de ação da AE evitam ou retardam a ovulação, ou impedem a migração sustentada dos espermatozoides. Não há encontro entre os gametas masculino e feminino. Assim sendo, não ocorre a fecundação.

A diminuição progressiva da efetividade da AE, conforme transcorre o tempo a partir da relação sexual, e a incapacidade de produzir sangramento imediato ou mesmo em caso de gravidez são demonstrações simples, porém evidentes de que a AE é capaz de evitar a gravidez, mas não de interrompê-la. A AE impede a fecundação e não há indicadores de que ela atue após esse evento, inclusive sobre o endométrio. Este fato deveria ser sufi- ciente para estabelecer, claramente, a ausência de efeito abortivo.

Ministério da Saúde – Anticoncepção de emergência : perguntas e respostas para profissionais de saúde (2011).

O assunto sobre o aborto continua com outras situações e dúvidas no manual, porém, não é intuito do site Farmacologia promover debate sobre a temática, uma vez que tal fundamentação pode ter opiniões distintas baseadas em crenças, religiões ritos, etc. Sendo assim, a proposta com esse post é, simplesmente, difundir preceitos puramente científicos e referenciados para as diversas classes de profissionais da saúde.

Nas referências terão manuais, artigos e protocolos que podem complementar o seu conhecimento e te ajudar, de alguma forma, na sua disciplina ou prática clínica. Em uma postagem futura irão conter interações medicamentosas, considerações sobre o fármaco e outros pontos pertinentes, aguardem.

Não se auto-medique! Procure um profissional de saúde!


Referências Usadas & Recomendadas.

Anticoncepção de emergência : perguntas e respostas para profissionais de saúde / Ministério da Saúde, Secretaria de Atenção à Saúde, Departamento de Ações Programáticas Estratégicas. – 2. ed. Brasília : Editora do Ministério da Saúde, 2011. Disponível aqui.

Wannmacher, L. Contracepção de emergência: evidências versus preconceitos. Uso racional de medicamentos. Vol. 2, No6 Brasília, maio de 2005.

Protocolos da Atenção Básica : Saúde das Mulheres / Ministério da Saúde, Instituto Sírio-Libanês de Ensino e Pesquisa – Brasília : Ministério da Saúde, 2016. Disponível aqui.

Drezett, J. et al. Mecanismo de ação da anticoncepção de emergência. Reprod Clim. 26(2):44-51, 2011.

Foto: Link disponível.

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